8.12.04

Parece que foi ontem

Parece que foi ontem. Andava pela rua com uma velha amiga. Parece que chovia? _Sim, chovia. Um texto escrito à lá Saramago, sem espaços e com parágrafos longos, uma noite de chuva no centro de São Paulo. Uma velha andava pela rua. Chovia. Andava sozinha e parecia doente. Parecia? minha amiga quis ajudar, eu não. A velha carregava uma sacola e parecia doente. Tive medo: _o que será que tem naquela sacola? que espécie de golpe essa velha planeja? um texto sem espaços e com parágrafos longos. Eu não queria ajudar, a minha amiga queria, eu não queria ajudar, a minha amiga queria. Ela queria mais do que eu, eu ajudei a velha. _o que será que tem naquela sacola? que espécie de golpe essa velha planeja? Diário Popular, maio de 1999, "velha é chefe de quadrilha. se fazia de doente e sequestrava seus samaritanos" notícias marrons, jornais que não existem mais. Chovia. Como chovia. UM TEXTO SEM ESPAÇOS E COM PARÁGRAFOS LONGOS. Três pessoas em um guarda-chuva. Três pessoas molhadas. Uma velha doente e molhada. Ela com pena, eu queria ir embora. _que espécie de golpe... AHHHHHHHHH!!! A velha não sabia mais seu nome (sabia?), certamente não sabia seu endereço. Parece que foi ontem. Notícias de jornal marrom "Chuva castiga a cidade". Parece que chovia. Três pessoas em um guarda-chuva. Andávamos pra levar a velha pra algum lugar. Ela não sabia onde morava. Ela não podia ficar na chuva. Eu queria ir embora. "Perto da farmácia", a velha dizia. _Qualquer farmácia serve então. Um texto sem espaços e com parágrafos longos. Um texto com um parágrafo só. Cansativo? Chovia. Chovia no centro de São Paulo. Igual ao Saramago. Na porta da farmácia tinha um guarda. Na verdade, era um fiscal de trânsito. Eu disse: _Dá pra ajudar essa velha? Ela quer ir pra casa! Eu queria ir embora. Minha amiga queria ajudar. Ela se sentiu satisfeita. Eu me sentia cansado. A velha estava molhada e não sabia onde morava. Ela não sabia nem seu próprio nome. Seu nome era irrelevante. No fundo, todos são. _ O que tem nessa sacola? O guarda pergunta. A velha vai ser desmascarada. Jornais que não existem mais. Ela mostra uma lata de azeite e sorrí. A velha não queria enganar ninguém. Assim, ela me enganou. A minha amiga se sentiu satisfeita. Mais do que satisfeita. Eu ainda estava cansado. A velha continuou molhada e o guarda a levou para casa. Mas a velha não sabia onde morava. Chovia. Fomos embora.

Texto que escreví durante um surto de tédio, numa tarde de dezembro de 2004. A velha existe de verdade. Minha amiga também. Outro dia, ví a velha pedindo esmolas na av. Paulista. Ela estava sentada na frente de uma farmácia e segurava uma sacola. Que espécie de golpe ela planeja?

Sugestão: Ler este texto ouvindo "desde aquele dia", dos Engenheiros do Hawaii.

5 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Layz speaking....
Realmente.....história de parágrafo longo.....vc cansado.....chuva....parece o tédio de dezembro...hehehehehe
E realmente....mto diferente dos outros textos teus q eu já li.....
Vou t ligar agora! :D

bjaum....

10:02 PM  
Anonymous Anônimo said...

Poxa, como é difícil postar aqui, mas como vc falou que nunca postava aqui estou eu...
Acabamos de tomar umas brejas no bar do manu e resolvi dar uma entrada, no bom sentido é claro, em seu blog.

Falow´s
Sandri

12:26 AM  
Anonymous Anônimo said...

Tardeee !

A gente imagina, desfruta, vive... vive um mundo, que muitas vezes não perguntamos se realmente poderíamos estar ! A gente invade, absorve, ama como se ninguém pudesse tirar o que é gostoso de nós. Era gostoso, até um dia que não se sentiu mais o gosto. Hoje, eu não consigo me lembrar, mas permito viver. Não consigo lembrra da minha empolgação, mas sentir a satisfação de ter estendido a mão a alguém, para eu poder vestir a camisa de boa samaritana. Isso foi o que importou e não importa mais.

A Amiga

1:00 PM  
Anonymous Anônimo said...

Rafitas,
Legal o seu texto! Vc já me contou esta historinha! É estranha, mas eh bem legal!
Beijos

4:32 PM  
Anonymous Anônimo said...

Oie! Ficou mto legal seu texto! Esses textos que saem a parir de um surto, normalmente, são os melhores...isso pq a gente não pára pra pensar em qual palavra usar...assim fica mais verdadeiro...o ritmo tb que vc colocou...combina com a história...a gente vai lendo sem interrupção...e sente o seu receio em ajudar a velhinha, tadinha! Mas era só azeite, né? Isso serviu como um "ufa!" no final do texto...haha...uma parada pra respirar e quebrar o ritmo do parágrafo único. Legal msm! Melhor ainda sendo baseado em fatos reais...a vida fica mais divertida qdo temos histórias para contar...e mais ainda, qdo essas histórias são bem contadas! É isso...beijos. Camila.

8:15 PM  

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